Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Cultura e História
Festivais, o resgate da cultura amazônica Ed. 87

Uma linha tênue separa a realidade da fantasia, a história do folclore, envolvendo por sua vez as lendas, mitos, costumes e tradições que misturam eventos e personagens imaginários. Incorporando tudo isto à cultura regional, os valores objetivos e subjetivos das populações locais vão além da imaginação e materializam seus heróis e vilões em um conjunto de tradições folclóricas expressas artisticamente em festivais, tais como o de Parintins, Maués, Juruti, Manacapuru, Santarém e tantos outros que hoje marcam o calendário cultural da Amazônia.

À exceção da Marujada (Bragança), Boi Tinga (São Caetano de Odivelas), Marambiré (Alenquer), Sairé (Santarém), Marabaixo (Macapá), Festejos do Divino Espírito Santo (Vale do Guaporé-Rondônia) e poucos outros que tiveram origem e escopo mais antigos, o Festival Folclórico de Parintins é a mãe de todos os festivais da Amazônia, a partir do qual as festas culturais ganharam os calendários municipais da região. Parintins tem ainda o mérito de ser a reação contra a invasão cultural e econômica sofrida pela região a partir do golpe militar de 1964, quando “levas de homens diferentes chegaram dominando terras, devorando matas, ceifando cardumes, achacando bichos, dizimando índios e deletando as tradições do povo amazônico. A invasão eletrônica completou o ciclo pelas ondas do rádio e da televisão, despindo o amazônida de memória, como quem despetala uma rosa”, como bem expressa o livro Lendário Amazônico (Manaus, 2007). 
 
“O povo parintinense, na forma cabocla, na doce manha festeira rebuscou seus alfarrábios, pegou seus boizinhos de pano e sapecou toada e beleza pelo mundo afora, fazendo ressurgir a moribunda cultura regional. Mas a Amazônia despertou da letargia e novamente navegou pelos rios do folclore, fazendo boiar as lendas e deixando de bubuia a dança, o canto, a cor e a cara do nosso caboclo. O Boi da Ilha Tupinambarana virou revolução, valorizando nossas raízes e as origens de um povo que outrora só foi cativo do seu próprio isolamento, sedimentado numa civilização ribeirinha plena de sabedoria e harmônica com a exuberante natureza que a cerca, onde os rios são o início, o meio e o fim de todas as coisas, permeando a cultura das populações nativas, conduzindo a vida e formatando os sonhos”, enfatiza Apolonildo Britto, autor do ensaio Lendário Amazônico.
Enquanto o lado podre da migração trouxe miséria, destruição e alienação, os colonos portugueses, nordestinos e negros somaram vida, beleza e arte às tradições seculares dos primitivos habitantes da Amazônia, formando a criativa simbiose cabocla. Assim nasceu o Sairé, cuja liturgia e ritual datam de mais de 300 anos. Esse singular folclore teve conteúdo puramente religioso até meados do século XX, celebrando a Santíssima Trindade com um semicírculo (o Sairé) de cipó torcido, envolvido por algodão e enfeitado com fitas e flores coloridas, inspirado nos escudos portugueses.  
 
Com o decorrer dos anos, outros valores foram incorporados ao folclore do Sairé, misturando elementos religiosos e profanos, cujo ritual começa com procissão e hasteamento de dois mastros enfeitados com frutas e folhas regionais, seguido de ladainha, arraial e festejos dos moradores locais. Atualmente, somou-se ao Sairé o festival dos Botos Tucuxi e Cor-de-rosa, uma espécie de opereta cabocla que reúne beleza, cultura e multidões de visitantes que aproveitam o evento para banhar-se nas paradisíacas praias de Alter-do-Chão, às margens do Rio Tapajós. 

A Marujada é uma dança conhecida em todo o Brasil, um auto dramatizado, inspirado na tragédia marítima da Nau Catarineta, com predomínio do canto sobre as danças. Em Bragança, no nordeste paraense, ela em nada se assemelha a esse auto marítimo (também denominado Chegança de Marujos, Barca, Fandango), sendo ali uma manifestação cultural tipicamente local, fruto da colonização portuguesa que legou festividades religiosas em veneração a santos. A Marujada bragantina acontece desde 1789, quando os senhores de escravos permitiram que eles criassem a Irmandade de São Benedito e construíssem uma igreja em homenagem ao santo. Em agradecimento, os negros foram à casa de seus senhores e dançaram a Marujada, coreografada ao ritmo retumbão, que é o lundum puro saído das senzalas para os salões aristocráticos.

O Marambiré, por sua vez, é outra homenagem a São Benedito, o santo negro, sendo a manifestação cultural mais significativa da vila Pacoval, comunidade quilombola situada no município de Alenquer (oeste do Pará). Esse festejo sincrético de devoção religiosa mistura dança, música e muita brincadeira, além de juntar elementos da cultura cristã e africana que marcam a história e a identidade étnica do Pacoval. Conhecido também por Cordão do Marambiré ou Sangambira, o Marambiré passou a ser festejado depois que os negros fugidos das fazendas de Santarém ali se fixaram. Há quem diga que esse folclore veio da África, mas só foi festejado a partir da libertação dos escravos, em agradecimento a São Benedito. Sua coreografia é uma espécie de corte composta pelo rei e rainha do Congo e suas auxiliares, valsares, tocadores e contramestre, que representa os antigos reinados da África Central, presente em diversas manifestações culturais no Brasil, inclusive na Congada.

O Boi de Máscaras, o popular Boi Tinga, de São Caetano de Odivelas, no Estado do Pará, é outro folguedo que não sofreu influência de Parintins, apesar de ser derivado do bumba-meu-boi e ocorrer no mês de junho. O Tinga é um folguedo com pierrôs, cabeçudos e brincantes em torno do boi e do grupo de músicos que tocam sambas e marchas, estimulando evoluções engraçadas dos brincantes. Diferente da tradição do boi, o Tinga não morre, mas foge no fim da festa para reaparecer no ano seguinte. O folclore possui dois figurantes encarnando o boi, chamados tripas, enquanto em outras regiões este personagem aparece com apenas duas pernas (um tripa), sendo por isso apelidado pelos odivelenses de boi-galinha. Contam que as máscaras foram criadas para não identificar os brincantes, na maioria pescadores, que compravam a cabeça do boi na Ilha de Marajó, de onde se acredita ser originária a brincadeira.

Os ritmos afros são predominantes na música e na dança do Amapá, onde os negros preservam o folclore do Marabaixo (mar abaixo), dança que se assemelha ao arrastar dos pés presos pelas correntes da escravidão. Esse folclore ocorre nas principais comunidades negras do Estado, como Mazagão Velho e Igarapé do Lago, além dos bairros do Laguinho, Favela e Curiaú, em Macapá. No Marabaixo de Rua, os participantes dançam e tocam em cortejo, empunhando ramagens de murta e desfraldando bandeiras do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade pela comunidade. Nesse ritual é servida típica bebida da festa, a gengibirra, preparada com gengibre e cachaça ou como refresco da raiz da herbácea.

A partir do contagiante batuque, dança e ritmo frenético de origem africana, que chegou ao Brasil ainda no período colonial, espalhando-se por vários cantos do País, qualquer manifestação folclórica praticada em comunidades de negros era chamada de batuque, palavra que ainda serve para designar práticas religiosas afro-brasileiras. Foi assim com o boi-bumbá, chamado em seus primeiros registros históricos na Amazônia (1850), como “uma brincadeira de moleques e pretos”.

No rico folclore regional também desfilam o Carimbó, Bangüê, Ciranda do Norte, Maçarico, Obaluatê, Vaqueiro do Marajó, Lundu Marajoara, Siriá, Desfeiteira, Pretinha D´Angola, Xote Bragantino, Congada, Festa do Divino Espírito Santo, Barca, Fandango, Chegança de Marujos, Festa de São Tiago, Festa de São Joaquim, Folia de Reis ou de Santos Reis, o Festival de Anauá (Roraima), além da Marujada, Boi Tinga, Marambiré, Sairé, Marabaixo e inclusive aqueles que surgiram após a explosão cultural parintinense dos bois Caprichoso e Garantido, transformando a Amazônia numa gigantesca arena folclórica. 

O Boi-bumbá é sem dúvida o folguedo de maior significação estética, cultural e social do Brasil, brincado em quase todo o País, variando na forma, ritmo, toada, coreografia e nome em cada região. Apesar de instrumentos musicais, figurino e auto diferenciados, há um traço comum no folclore, no mínimo curioso, ele mais se desenvolveu em três ilhas brasileiras: Florianópolis (Boi de Mamão), São Luís (Bumba-meu-boi) e Parintins (Boi-bumbá), onde ganhou mais notoriedade no Brasil. Se o tradicional Bumba-meu-boi maranhense se tornou a manifestação folclórica brasileira mais difundida, Parintins deu-lhe grandiosidade e beleza, recriando o folguedo original e nele incorporando elementos culturais da Amazônia, sem desrespeitar suas raízes tradicionais. Este fato dinâmico é reconhecido internacionalmente pela repercussão dos festivais ali realizados e pelos milhares de visitantes que recebe todos os anos. Até mesmo o Carnaval do Rio de Janeiro se curvou diante da pujança e criatividade cênica do Boi de Parintins, sendo várias vezes enredo das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, cativando públicos, artistas e formadores de opinião do mundo inteiro.

As origens do Boi de Parintins são imprecisas, mas há quem garanta que ele nasceu no fim do século XIX, trazido pelos nordestinos, ainda como um folguedo junino, na forma do tradicional Bumba-meu-boi, do Maranhão. Mais tarde, em 1913, Lindolfo Monteverde fundou o Boi Garantido, às vésperas do dia de Santo Antônio, como “Boi de Promessa”. Anos depois, ou em época aproximada, surgiu o Boi Caprichoso, criando a rivalidade que hoje dá magnitude ao Festival de Parintins. O que no começo era apenas uma brincadeira virou paixão junina e até brigas de rua, dividindo a cidade entre as cores azul e vermelha. Da Juventude Católica surgiu os festivais na década de 1960, quando a disputa dos bumbás passou para o campo da criatividade dos artistas e artesãos de Parintins. O canto virou toada, o boi de pano e tala ganhou movimento e o folguedo tradicional deu lugar a belas fantasias e grandes alegorias inspiradas na cultura regional. Enfim, Parintins chamou a atenção do governo do Amazonas, que construiu o Bumbódromo em 1988, um gigantesco anfiteatro em meio à Floresta Amazônica para apresentações folclóricas dos bois rivais, que passou a inspirar a criação de outros festivais, consagrando culturas, povos, fauna, flora e municípios da Amazônia. Assim nasceram o Festival das Tribos Indígenas de Juruti (Festribal), a Festa do Guaraná em Maués, o Festival de Cirandas de Manacapuru, o Festival de Alter-do-Chão (botos Tucuxi e Cor-de-rosa), o Festival do Zé Matuto e Matutando em Férias, de Alenquer, e tantos outros que responderam ao apelo cultural de Parintins, reacendendo a flama nativista de nossos antepassados, trazendo de volta as ricas tradições, costumes e imaginário que sedimentaram a identidade cabocla.

Aliás, essas novas manifestações folclóricas não se conflitam nem se repetem, apenas se completam e resgatam a pródiga cultura das micro-regiões da Amazônia, com abordagem, forma e conteúdo diferenciados. Qualquer semelhança é mera coincidência da cultura regional, cuja influência entre si é indissociável. Parintins conjuga o tradicional folguedo junino dentro de contexto próprio, enquanto os outros festivais apresentam as raízes culturais peculiares de cada município, em torno das quais resgatam seus valores adormecidos pelos novos padrões sociais impostos a partir da malfadada “integração nacional”.

A preocupação agora é com a continuidade desse processo de depuração que já começa a dar mostras de contaminação, com influência do axé baiano, espetáculos hollywoodianos e outros elementos estranhos à cultura regional, que está se distanciando o amazônida cada vez mais de sua identidade, no afã de transformá-lo em evento popular de apelo político ou num grande show-business para enriquecer empresários e espertalhões de maioria alienígena.


     
Rua Pedro Álvares Cabral, 161 - Conj. Dom Pedro | Fone/Fax (92) 3657-0120
Copyright 2009 - Todos os direitos reservados