Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Cultura e História
ícones revelam a face amazonense Ed. 87

Sempre ouvimos falar que uma imagem vale mais do que mil palavras. Quando olhamos uma fotografia do Teatro Amazonas, por exemplo, a imagem deste monumento histórico nos remete imediatamente à cidade de Manaus, ao período áureo da borracha, ao governador Eduardo Ribeiro e ao Festival de Ópera. Esses conceitos embutidos na figura desse teatro fazem dele um ícone da cidade de Manaus (e do Estado do Amazonas).
A palavra ícone vem do grego (eikon), que significa imagem, mas a iconografia leva as figuras a um sentido conotativo mais amplo. Atualmente, o termo refere-se também ao estudo da história e da significação de qualquer objeto ou grupo temático, cuja imagem materializa os símbolos culturais significativos, ou a leitura crítica desses valores através da identificação, descrição, classificação e interpretação de temas figurativos. Podemos dizer que um ícone é a representação de uma realidade transcendente que preenche nossa visão estética, cuja contemplação sustenta a ordem e fixa conceitos através da imagem, concentrando nela uma realidade simbólica. Um ícone expressa também o imaterial, além das linhas e cores.
O mais famoso ícone conhecido é o dos primeiros cristãos, representado por uma linha côncava e outra convexa originadas do mesmo ponto e que se ultrapassam nas pontas (em forma de peixe), além da cruz, que se desenvolveu através dos séculos a partir das catacumbas, atravessando os concílios e a iconoclastia que dominou o longo caminho do cristianismo.

O Teatro Amazonas, por exemplo, como ícone, representa um teatro de ópera (a edificação), construído em Manaus, no tempo áureo da borracha, pelo então governador Eduardo Ribeiro, onde hoje é realizado o festival de ópera do Amazonas. Além desse imponente monumento, o Estado do Amazonas possui outros ícones identificados por pesquisadores e agentes culturais, que mostram ainda as potencialidades econômicas representadas por esses bens da Marca Amazonas, dentre eles o boto, o Encontro das Águas, o bodó, a vitória-régia, a borracha, o sauim-de-manaus, o guaraná, o pirarucu, o acará-disco, o tucunaré, o artesanato indígena, o boi-bumbá e tantos outros ícones com identidade amazonense, não apenas por si mesmos, como pelo cenário que integram.
Com objetivo de buscá-los na diversidade cultural do Estado, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Amazonas (Sebrae-AM) determinou pesquisas em todo o território amazonense, envolvendo profissionais das mais diversas áreas das Ciências Sociais (antropólogos, sociólogos), além de artistas e técnicos, cuja missão durou sete meses de trabalho (de julho de 2005 a janeiro de 2006), com inúmeras viagens, círculos de estudos, entrevistas e debates. Os municípios-pólo pesquisados por área cultural foram os de Manaus e Barcelos (Rio Negro); Eirunepé (Juruá); Lábrea (Purus); Humaitá (Madeira); Parintins (Rio Amazonas); e Tabatinga (Solimões), que serviram para formatar o livro denominado Catálogo Amazonas: Diversidade Cultural Iconográfica, publicado pela Norte Editorial, uma amostra do Estado, contendo avaliação e diagnóstico dos ícones de cada área cultural pesquisada.

O livro é uma referência para que os empreendedores usem em seus produtos as imagens, traços e cores que expressam a identidade do Amazonas. Parodiando Câmara Cascudo, o antropólogo Ademir Ramos diz que o melhor do Amazonas são os amazonenses e que a obra oferece análises comprovando o quanto é valiosa a diversidade cultural do Estado, representada nas manifestações materiais e imateriais desse povo, capaz de vivificar os mitos na perspectiva de se afirmar como agente da sua própria história. São tantos os ícones quanto imenso é o Amazonas, o maior Estado brasileiro, que nos remete a um maravilhoso passeio pelas florestas de igapó e terra-firme, singrando mananciais de rios, lagos e igarapés e adentrando lares singelos, onde a hospitalidade cabocla, a culinária exótica e a pródiga criatividade regional fazem a diferença. Conheça alguns ícones amazonenses:
O açaizeiro (Euterpe oleracea), uma palmeira das margens dos rios amazônicos cujo fruto, que faz parte dos hábitos alimentares da região, fornece madeira e palha para construção de casa, além do palmito. O açaizeiro fornece um suco de excelente sabor, considerado um energético natural, atualmente apreciado no mundo inteiro. O boto-vermelho (Inia geoffrensis) é um encantado que emerge das águas nas noites de lua cheia, quando adquire forma humana, para conquistar e emprenhar as mulheres. A lenda minimiza o pecado da gravidez indesejada, transformando a mãe em vítima do sobrenatural. Assim, é comum ouvir sobre os “filhos do boto”, quando a gravidez da ribeirinha não tem paternidade conhecida. Outra figura que simboliza o Estado é a da seringueira, cujos vincos cravados nas árvores, em forma de espinha de peixe, lembram o período áureo da borracha, vivenciado no Amazonas entre 1870 a 1911, com a supremacia deste produto no mercado mundial. A extração do látex das seringueiras atraiu dezenas de milhares de migrantes e grandes companhias mercantis, que fizeram crescer rapidamente a economia de Manaus, que ganhou ares europeus em sua arquitetura e qualidade de vida, materializada também pela rede de esgotos, água encanada, luz elétrica, porto flutuante, bondes elétricos e outros serviços cosmopolitas.
O cupuaçu (Theobroma grandiflorum) é o fruto de uma árvore pertencente à mesma família do cacau, que se tornou conhecido por sua polpa cremosa de sabor exótico usada para se fazer sucos, cremes, sorvetes, geléias, tortas e doces, inclusive sendo ingrediente em bombons regionais de chocolate, licores e cosméticos. O sabor do cupuaçu já ultrapassou fronteiras a ponto de ter sua patente pirateada por japoneses, tentativa barrada pelo Brasil. O Encontro das Águas do Rio Negro e Solimões é o ponto culminante das atrações turísticas naturais de Manaus, sendo visitado diariamente por centenas de pessoas, principalmente por turistas estrangeiros. Esse espetáculo da natureza acontece a poucos quilômetros de Manaus, onde as águas escuras do Rio Negro se encontram com as águas barrentas do Rio Solimões, formando o Rio Amazonas.

O guaraná (Paullinia cupana) é um arbusto que tem propriedades excitantes pelo conteúdo de cafeína e teobromina; possui sementes que parecem olhos humanos, sendo um dos principais ícone do Amazonas. Os índios saterês-maués dominam secularmente o manejo desse fruto e a sua manufatura, fazendo do guaraná matriz alimentar, utilizada no cotidiano por meio do sapó, uma bebida feita de guaraná ralado misturado com água. Industrializado, o produto guaraná é muito difundido não só no Brasil, mas também em todo o mundo.
O pirarucu (Arapaima gigas), identificado pelos europeus como “o bacalhau da Amazônia”, também representa o Estado, por ser uma espécie endêmica das áreas alagadas do Amazonas, onde se reproduzem e são capturados pelos ribeirinhos. Já o magnífico Teatro Amazonas, monumento ímpar da região, situado no centro histórico de Manaus, teve sua construção iniciada no ano de 1884, com projeto arquitetônico em estilo eclético e pinturas da cúpula e pano de boca com motivos amazônicos. Inaugurado em 31 de dezembro de 1896, pelo governador Eduardo Ribeiro, em pleno apogeu do ciclo da borracha, o Teatro Amazonas estreou com a ópera La Gioconda, de Ponchielli, encenada pela Companhia Lírica Italiana.
O artesanato é a manifestação das identidades coletivas, preservando a dignidade e a criatividade de seus objetos artesanais. Os especialistas da cultura material afirmam que a técnica da cestaria é mais antiga que as utilizadas para produzir cerâmica e tecelagem, podendo ser a matriz para os padrões de desenhos aplicados a outras artes. Na Área Cultural Rio Negro, essa tradição é marcante devido à densidade dos povos indígenas nesse território, destacando ainda adornos com sementes e plumas, além de utensílios feitos com cipó, fibra, madeira e argila, cujas texturas são características das etnias regionais. O acará-disco (Symphisodon discus) e o cardinal (Paracheirodon axelrodi) são duas espécies de peixes amazônicos absolutamente diferentes, que caracterizam-se pela beleza, singularidade e comportamento. São espécies consideradas como reis do aquário de água doce, tendo Barcelos como referência. O cardinal vive em cardumes, sendo identificado por uma faixa vermelha na parte inferior do corpo que se estende até a sua metade. Porém, tanto um quanto o outro são originários das águas amazônicas e, particularmente, do Rio Negro, devido à acidez das suas águas pretas.

Os esportistas deleitam-se na pesca do colorido tucunaré-açu (Cichla termensis), considerado um dos peixes mais atrativos da pesca esportiva. A espécie é abundante nas águas do Rio Negro, em especial nos municípios de Barcelos e Santa Izabel do Rio Negro. Outro ícone aquático do Amazonas é o bodó (Liposarcus pardalis), reconhecido pelo corpo recoberto de placas ósseas e boca inferior, comuns em lagos e várzeas da sub-região do Baixo Amazonas, onde também é chamado por acari ou cascudo, do qual é feita a farinha de piracuí, com sua carne assada, torrada e pilada.
No final do século XIX, o Amazonas recebeu migrantes nordestinos atraídos pela borracha. Eles trouxeram uma de suas mais fortes tradições culturais, o bumba-meu-boi, transformado em Parintins no boi-bumbá, estrela do festival folclórico que ali acontece todos os anos, celebrando a rivalidade entre os bois Caprichoso e Garantido, que existe desde 1913, atraindo multidões o majestoso espetáculo amazônico em Parintins, por três dias seguidos, show cultural típico do Amazonas que ganhou público no mundo todo.


     
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