|
Em 10 de dezembro de 2008, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça aprovou, em Rio Branco, no Acre, a condição de anistiado político post-mortem de Chico Mendes, a pedido de sua viúva Ilzamar, protocolado em 2005. Este ato de justiça poderia ser um grand finale para o filme “Chico Mendes - Um Povo da Floresta”, documentário dirigido pelo Jornalista Edilson Martins, lançado em 1989, no qual Chico Mendes deu um de seus últimos depoimentos, contando ao mundo a luta dos seringueiros contra o avanço dos fazendeiros pecuaristas na Amazônia, explicando a tática de enfrentamento, os empates, em que homens, mulheres e crianças se jogavam na frente dos tratores e das motoserras para evitar o desmatamento. O próprio Chico preconizou na entrevista que sua morte era questão de tempo.
“Amazônia em Chamas”, lançado em 1994 pela Warner Brothers, é outra obra cinematográfica a qual o finale lacônico poderia baixar o pano de fundo da vida de Chico Mendes, um idealista, cujo verdadeiro resultado de lutas dedicadas em defesa do meio ambiente e dos povos da floresta são as 43 reservas extrativistas (Resex) que abrangem 8,6 milhões de hectares e abrigam 40 mil famílias no Acre. Essas Unidades de Conservação (UC) de uso sustentável garantem legalmente a preservação dos recursos naturais e, ao mesmo tempo, a manutenção da atividade econômica e a posse coletiva da terra pelas populações tradicionais (seringueiros, castanheiros, babaçueiros, caiçaras etc), que nasceram originalmente da luta pela identidade dos seringueiros, povos que viveram explorados secularmente pelos patrões da borracha nativa na Amazônia.
O interessante é que, de repente, assim como as águas da fonte se transformam em rio, nem Chico Mendes conseguiu dimensionar a importância de seu ideal, como confessou certa vez antes de ser assassinado: “No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade”
Francisco Alves Mendes Filho era o nome deste líder seringueiro conhecido como Chico Mendes. Ele nasceu em Xapuri (15 de dezembro de 1944), onde também morreu em 22 de dezembro de 1988. Foi seringueiro, sindicalista e ativista ambiental, cuja luta pela preservação da Amazônia o tornou conhecido internacionalmente e motivou a fúria de seus assassinos. Desde criança aprendeu o ofício de seringueiro com o pai e só aprendeu a ler aos 20 anos de idade, pois havia poucas escolas, que não interessavam aos proprietários de terras nem aos seringalistas.
Iniciou a vida de líder sindical em 1975, como secretário geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir de 1976 participou ativamente das lutas dos seringueiros para impedir o desmatamento através dos “empates” - manifestações pacíficas em que os seringueiros protegem as árvores com seus próprios corpos. Organizava também várias ações em defesa da posse da terra pelos habitantes nativos, até que em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Foi eleito vereador pelo MDB local nas eleições 1976, quando passou a receber as primeiras ameaças de morte, por parte dos fazendeiros, o que ocasionau problemas com seu próprio partido, não identificado com suas lutas.
Em 1979 Chico Mendes reúne lideranças sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal, transformando-a em um grande foro de debates. Acusado de subversão, é submetido a duros interrogatórios. Sem apoio, não consegue registrar a denúncia de tortura que sofrera em dezembro daquele ano. Chico Mendes foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e um dos seus dirigentes no Acre, tendo participado de comícios com Lula na região. Em 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido de fazendeiros da região, que procuraram envolvê-lo no assassinato de um capataz de fazenda, possivelmente relacionado ao assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia, Wilson Sousa Pinheiro.
Em 1981 Chico Mendes assume a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Candidato a deputado estadual pelo PT nas eleições de 1982, não consegue se eleger. Acusado de incitar posseiros à violência, foi julgado pelo Tribunal Militar de Manaus, e absolvido por falta de provas, em 1984.
Liderou o 1º. Encontro Nacional dos Seringueiros, em outubro de 1985, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros pela preservação do seu modo de vida adquiriu grande repercussão nacional e internacional. A proposta da União dos Povos da Floresta em defesa da Floresta Amazônica busca unir os interesses dos indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas. Essas reservas preservam as áreas indígenas e a floresta, além de ser um instrumento da reforma agrária desejada pelos seringueiros.
Em 1987, Chico Mendes recebeu a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, que puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causada por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois leva estas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Os financiamentos a esses projetos são logo suspensos. Na ocasião, Chico Mendes é acusado por fazendeiros e políticos locais de “prejudicar o progresso”, o que aparentemente não convence a opinião pública internacional. Alguns meses depois, Mendes recebe vários prêmios internacionais, destacando-se o Global 500, oferecido pela ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente.
Ao longo de 1988 participa da implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre. Ameaçado e perseguido por ações organizadas após a instalação da UDR no Estado, Mendes percorre o Brasil, participando de seminários, palestras e congressos onde denuncia a ação predatória contra a floresta e as violências dos fazendeiros contra os trabalhadores da região.
Após a desapropriação do Seringal Cachoeira, em Xapuri, propriedade de Darly Alves da Silva, agravam-se as ameaças de morte contra Chico Mendes que, por várias vezes, denuncia publicamente os nomes de seus prováveis responsáveis. Deixa claro às autoridades policiais e governamentais que corre risco de vida e que necessita de garantias. No 3º Congresso Nacional da CUT, volta a denunciar sua situação, similar à de vários outros líderes de trabalhadores rurais em todo o país. Atribui a responsabilidade pela violência à UDR. A tese que apresenta em nome do Sindicato de Xapuri, “Em Defesa dos Povos da Floresta”, é aprovada por aclamação pelos quase seis mil delegados presentes. Ao término do Congresso, Mendes foi eleito suplente da direção nacional da CUT. Também a presidência do Conselho Nacional dos Seringueiros a partir do 2º Encontro Nacional da categoria, marcado para março de 1989, porém não sobreviveu até aquela data.
O Assassinato – Em 22 de dezembro de 1988, exatamente uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa, na frente da mulher e dos filhos. Chico anunciou que seria morto em função de sua intensa luta pela preservação da amazônia e buscou proteção, mas autoridades e a imprensa não deram atenção. Casado com Ilzamar Mendes, deixou dois filhos, Sandino e Elenira, na época com dois e quatro anos de idade, respectivamente.
A justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva Darcy Alves da Silva, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão, em dezembro de 1990. Darly fugiu em fevereiro de 1993 e escondeu-se num assentamento do Incra, no interior do Pará, chegando mesmo a obter financiamento público do Banco da Amazônia, sob falsa identidade. Só foi recapturado em junho de 1996. A falsidade ideológica rendeu-lhe uma segunda condenação: mais dois anos e oito meses de prisão.
O caso Chico Mendes, contudo, despertou pela primeira vez a atenção internacional para os problemas dos seringueiros e para a devastação da Amazônia. Através do seu assassinato, ele tornou-se símbolo e representante dos muitos outros moradores da floresta, assassinados, desapossados ou ameaçados, que lutavam por uma Reforma Agrária na Região. Com Chico Mendes os seringueiros e castanheiros passaram a resistir a ameaças e expulsões, unindo-se em sindicatos rurais e organizando-se para impedir as derrubadas. Assim, também se iniciou o mais importante processo de conquista de autonomia dos seringueiros da região do Vale do Acre, que abrange os Municípios de Xapuri, Brasiléia, Rio Branco, Assis Brasil e parte de Sena Madureira, um fato fundamental para se estabelecer comparações com outras formas de luta e resistência pela posse da terra no País e definir uma proposta de Reforma Agrária para todo o País. (Baseado em textos da Internet)
|