Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Entrevistas
Uma Visão Lúcida da Amazônia Sustentável Ed. 86

Maurício Elísio Martins Loureiro, 53 anos, carioca, administrador de empresas, ingressou na Technos Relógios em 1976, no Rio de Janeiro, como auxiliar de escritório. Em 1981, foi transferido para Manaus onde exerceu a função de gerente de Importação na empresa, que naquele momento estava iniciando suas atividades industriais na cidade. Colaborou na montagem da fábrica da Technos na capital amazonense, que iniciou no mesmo ano a fabricação de relógios de pulso. Maurício Loureiro e Pedro Wiltgen iniciaram um projeto de administração de sucesso que vem proporcionando crescimento contínuo aos negócios da empresa e, por isso, em 1986, o empresário ascendeu à posição de gerente-geral, passando a sócio-gerente do Grupo Technos, com participação acionária, em 1997. Por sua indicação, em 1982, a Technos filiou-se ao Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam). Um ano depois, Maurício Loureiro, juntamente com outros empresários, passou a integrar o Conselho Superior do Cieam, assumindo a presidência da entidade de classe em 1998, cargo que ocupa até hoje.

Amazon View – A concorrência paulista do tão esperado receptor de tevê digital pode prejudicar o pólo industrial de Manaus?

Maurício Loureiro – Vejo essa discussão inócua no Brasil, porque é uma coisa de mercado. O padrão de tevê digital  que o Brasil optou é uma tecnologia difícil por ser única no mundo, que só os japoneses a têm, e agora nós. É uma tecnologia ainda inacabada, pois se você for hoje ao Japão e quiser ver televisão no seu celular você pode, mas tem áreas em que ela não funciona. Compramos um produto que não funciona em sua plenitude e vamos ter que pagar por ele. Por outro lado, se o governo disser, por exemplo, para um empresário de televisão: “Você tem até 2016 para investir na transmissão digital!” O empresário pensa – “Bom, se eu investir agora, quanto vai me custar? Dez milhões. E se eu investir daqui a nove anos, quanto custará? Quatro milhões.” É claro que ele só vai investir daqui a nove anos. E o que vamos fazer então com os receptores de tevê digital produzidos na ZFM, se só vamos ter transmissão digital de fato em 2016? Isso leva a outro assunto: as tevês de LCD e plasma estão caindo de preço no mundo inteiro e também no Brasil. Uma loja de São Paulo está pensando em fazer para as tevês de LCD e plasma um financiamento parecido como o do carro, em até 84 meses. A partir deste ano, os bancos vão financiar tevês de LCD e plasma para pagar em cinco anos, com prestações do tamanho do bolso do cliente, ou seja, cerca de R$ 30 ou R$ 40 por mês. O que tem mais risco? Uma tevê na parede ou um carro andando no trânsito durante 84 meses? É evidente que a tevê tem menos risco. Com isto, a produção de tevês na ZFM aumenta e colocamos um negócio chamado FULL HD dentro delas, o que acaba com a necessidade do receptor de tevê digital. Tenho uma tevê dessa na minha casa, de 50 polegadas, é uma maravilha moderna e eu não preciso de receptor de tevê digital.  O que interessa mais, vender receptor de tevê digital  ou televisão? Televisão, é claro, porque não assistimos receptor de tevê digital e quem quiser ter três televisores, precisará de três receptores de tevê digital.

Amazon View – O ministro Hélio Costa, com toda  insistência e pretextos, está puxando a tevê digital para outros Estados, em especial para Minas Gerais. O senhor acredita que ele possa se sair vitorioso nesta empreitada?

Maurício Loureiro – De jeito nenhum. A opção pela tecnologia japonesa foi única e apenas o Brasil entrou nessa, pois os componentes são muito caros. A China não entrou nela e se tivesse adotado o preço cairia, por isso uma fábrica da ZFM lançou o receptor de tevê digital que custa R$ 200 e que será colocado no mercado por R$ 299, com 1 gigabytes de memória embutida, ou seja, com interatividade. O fabricante amazonense diz que está pagando para vender. Diante de tudo isso, se uma pessoa me perguntar qual produto fabricar na ZFM, diria que devia produzir tevê de LCD e plasma e explicaria que o mercado potencial do produto no Brasil é de, no mínimo, 80 milhões de unidades, principalmente se o aparelho for financiado como se espera.

Amazon View – Como o senhor vê o desenvolvimento de Manaus e seu desdobramento através da Zona Franca de Manaus (ZFM)?

Maurício Loureiro – Tivemos dois grandes ciclos econômicos no Estado do Amazonas, o primeiro foi o da borracha, quando Manaus viveu uma época de prosperidade social e desenvolvimento urbano. Naquele tempo, o País ainda não tinha conhecimento da tecnologia moderna de então, que nos foi oportunizado pelos grandes investimentos em função da borracha, mas esses recursos foram mais aplicados fora do que aqui dentro do Amazonas. A visão resumida que tenho daquele período, é que ele nos levou a uma grande melhoria de vida, mas nos causou uma grande ruína no declínio da borracha. Fazendo uma comparação entre o que ocorreu na época da borracha e a Zona Franca, hoje, em seus 41 anos de existência, é que podemos dela aprender uma lição para modelar o futuro, pois as pessoas que estudam a respeito daquela época precisam tomar certo cuidado de não cometer os mesmos erros. Ainda não detemos o conhecimento sobre a tecnologia do plasma, nem a tecnologia do LCD e nem a nanotecnologia. Por que não temos tudo isso? Porque, desde a época da borracha, entrando pela ZFM, o Amazonas não teve um projeto de educação voltado para o desenvolvimento futuro. Ou seja, continuamos patinando na questão da educação, o que preocupa muito, pois temos uma grande oportunidade com a ZFM, que vem acumulando um determinado volume de capital intelectual, mas não sabemos como utilizá-lo em nosso favor. Por outro lado, acumulamos uma riqueza muito grande em arrecadação de impostos que não são aplicados devidamente.

Amazon View – Há desvio de impostos para outros Estados ou a União não os devolve para o Amazonas?

Maurício Loureiro – A União arrecada muito com a ZFM e nos devolve pouco. O mesmo acontece com a arrecadação do ICMS e do ISS  arrecadados ao longo desses 41 anos.  O que essa fortuna arrecadada trouxe concretamente para Manaus ou para o interior do Estado? Acredito que o Amazonas merece desenvolvimento e um bom planejamento de longo prazo, para não cairmos no mesmo atraso que ocorreu com o declínio da borracha.

Amazon View – A Zona Franca de Manaus nasceu sem planejamento para o desenvolvimento da região?

Maurício Loureiro – Na minha opinião, a ZFM nasceu por um acaso, como uma gestão política e estratégica dos militares de 1964, com um modelo até então inexistente no Brasil. Em 1957, foi feita uma expedição para conhecer esse modelo no exterior, trazido para cá 10 anos depois, pelo regime militar, que o adotou como estratégia política, porque naquele momento a Amazônia já era cobiçada pelo mundo inteiro devido a suas riquezas minerais.

Amazon View – Será que a pendência de prorrogação desde a sua criação em 1967, tenha motivado a falta de planejamento para  ZFM?
Maurício Loureiro – Não acredito que a ZFM acabe, pois não há quem extinga esse modelo bem sucedido, apesar de tudo. Acredito que ele passará por depurações, mas nunca pela extinção, por que existem diversas variáveis no mundo que fazem com que o modelo fique cada vez mais fortalecido. O que precisamos é desenvolver inteligências que lhes darão apoio no futuro. A questão ambiental coloca a Amazônia no centro das atenções mundiais e a ZFM como instrumento desta política. Podemos negociar a sua perenização em troca de preservação ambiental e estender o modelo para toda a Amazônia Ocidental. Tudo que for indústria não poluente poderá se abrigar na ZFM, tendo como contrapartida um planejamento onde os 62 municípios do Amazonas sejam contemplados com desenvolvimento nos próximos 50 anos.

Amazon View – Como homem experiente e inserido no contexto industrial, qual a sua sugestão para a educação no Amazonas?

Maurício Loureiro – Em 1993, quando o governo federal exigiu que as empresas do pólo industrial tivessem a certificação ISO 9000, descobrimos que os nossos colaboradores não sabiam interpretar o que estavam lendo. Fizemos então um levantamento para saber quanto tempo eles levariam para concluir o ensino médio e elaboramos um projeto de educação. Fizemos um acordo com cada um, a fim de que estudassem e concluíssem o ensino médio, condicionando sua permanência no emprego à conclusão do curso em um determinado período. O resultado é que hoje todos têm ensino médio e não admitimos que não o tiver concluído. Todos têm de se submeter a provas de matemática, português e outras disciplinas para serem admitidos, porque a partir desse momento o empregado passa a ter participação nos lucros da empresa. No ano passado distribuímos R$ 5,5 milhões para os nossos 640 empregados, que representam de sete a oito salários a mais por ano. Educando o nosso colaborador ao longo do tempo estamos formando capital intelectual apto a concorrer no mercado interno e externo e buscar algo muito importante para a empresa, que é o lucro.

Amazon View – O senhor disse que há uma perspectiva infinita para a ZFM. Por quê?

Maurício Loureiro – Vivemos um momento em que o meio ambiente é um grande negócio e que a descoberta de um fitoterápico que eventualmente prolongue a vida de alguém que tem câncer, ou cure o mal de Alzheimer ou de Parkinson represente lucro financeiro. Então, o Amazonas deve buscar abrigar laboratórios particulares, oferecer toda a infra-estrutura e atrair pesquisadores que venham para a região e a pesquisem palmo a palmo. Existem duas maneiras de se trabalhar na região: por cobrança de royalty por 20 anos ou por venda de patente, ficando um terço para o pesquisador, outro terço para entidade patrocinadora e o restante para o governo apoiador. Dessa forma podemos atrair base científica do mundo inteiro para cá, ajudando a desenvolver efetivamente e acrescentar maior capital intelectual à região. Nosso grande filão será a biotecnologia, no primeiro momento, e a nanobiotecnologia, no segundo.

Amazon View – A ZFM poderia ter mais opoio político?

Maurício Loureiro – Em primeiro lugar, acho que a ZFM não é um projeto exclusivamente do Amazonas e, sim, do Brasil para o Brasil, criado por lei federal. Não precisamos muito para dar grandes passos; precisamos de força naquilo que nos foi delegado, ou seja, nos termos da legislação, se essa for respeitada. O problema é que hoje no Brasil a política define os rumos da nação e não da questão econômica; é o inverso, a economia às vezes define a questão política e a questão econômica é uma questão de negócio. Esta é a situação do Brasil: temos um grande país, mentes brilhantes, mas não sabemos o que fazer com tudo isso. O Brasil precisa saber o que quer, se cria Zonas de Processamentos de Exportação (ZPEs), se mantém a ZFM, ou se faz Reforma Tributária. Queremos primeiro a Reforma Tributária para definir regras para um País como um todo e também continuar com a Zona Franca, porque precisamos preservar a Florestas Amazônica. E que faremos com as ZPEs? Nada, porque já terá sido feito a Reforma Tributária.

Amazon View – Como o senhor conceitua atualmente a ZFM, com as virtudes, os problemas e as falácias dela?

Maurício Loureiro – Há uma política absolutamente errônea a respeito da ZFM, porque produzimos riqueza financeira que é levada a Brasília, para fechar o caixa da União, e depois temos que mendigar para o governo federal esses recursos financeiros. É um descaso com o Amazonas, pois se geramos renda, temos o direito de usufruí-la e não cedê-la a terceiros. Num segundo momento, vejo descaso com a população brasileira, pois temos representantes do povo brasileiro com cartões que lhe dão direito a gastar sem controle. Acho que precisamos discutir essas coisas no Brasil, independemente de quem esteja no poder. Não acho que falte representatividade para nós e sim uma coisa muito maior, que é participar para resolver politicamente as questões regionais. Vejo que há um grande acordo político em Brasília, onde todo mundo se entende lá em cima e o resto se esborracha aqui em baixo.

Amazon View – O senhor acredita que por detrás da palavra desenvolvimento sustentável há uma grande falácia?

Maurício Loureiro – Discordo, porque o interior do Estado só precisa de um planejamento de 50 anos para trabalhar a questão dos municípios, pois o caboclo que ali está não tem que se sujeitar só a criar peixes, porque ele tem inteligência para ser desenvolvido em seu ambiente. Acho que está faltando para a Amazônia, como para o País, é um projeto de Nação, um projeto Amazônia! Acho que o presidente Lula e o governador Eduardo Braga, que tanto viajam pelo mundo, estão perdendo uma grande oportunidade de deixar um projeto de desenvolvimento para a nação brasileira e para o Estado do Amazonas, estabelecendo estratégias para o futuro. Seria algo que nem precisaria se executar logo, mas apresentá-lo à nação como um projeto do Brasil, a fim de que a sociedade possa exigir dos futuros governantes.

Amazon View – O senhor acha que a ZFM é um modelo ideal para a Amazônia?

Maurício Loureiro – Acho, sim! Primeiro por que a ZFM é de um pólo concentrador de determinadas tecnologias e que se nós tivermos preparo social para melhor desenvolvê-las teremos sucesso maior, principalmente se a educação contribuir significativamente para este desenvolvimento tecnológico. Tanto é assim que a maior parte dos alunos do ensino médio técnico da Fucapi se empregam ao se formarem. O Brasil hoje forma cerca de 25 mil engenheiros por ano, mas estamos precisando formar, segundo levantamento recente, pelo menos mais 70 mil engenheiros com qualificação adequada para atender à demanda do mercado.

Amazon View – Qual é a demanda de engenheiros na ZFM?

Maurício Loureiro – Diria que, na área de eletrônicos, se nós tivéssemos mais 200 engenheiros, todos estariam empregados. O problema é que não tem, razão pela qual as empresas trazem pessoas de fora, da Coréia do Sul, Japão ou China, que treinam o pessoal daqui e depois voltam ao país de origem. Precisamos de engenheiros químicos e outros profissionais da área técnica, porque quando os tivermos vão aparecer negócios em torno deles que vão exigir mais profissionais voltados para essas áreas.


     
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