Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Entrevistas
“Tecnologia insere o Amazonas em nova fase” ed.88

 

José Aldemir de Oliveira, geógrafo, doutor em Geografia Humana pela USP, professor titular da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), atua nos programas de pós-graduação: mestrado e doutorado (Sociedade e Cultura na Amazônia); mestrado em Ciências Ambientais na Amazônia; e mestrado em Geografia. Pesquisador do CNPq, coordena um grupo de pesquisa sobre cidades na Amazônia brasileira, também é autor de livros sobre a temática urbana regional. Em 2003 implantou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), sendo seu diretor-presidente até 2005. Desde maio de 2007 está à  frente da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas.

Amazon View – Como o senhor classifica o atual momento econômico vivido pelo Amazonas, em relação a Zona Franca de Manaus (ZFM) e a entrada de seus produtos no mercado mundial?

Secretário – Podemos dividir esse modelo vitorioso em três momentos: o período pós 1967, que é o da instalação da Zona Franca de Manaus, se caracterizando por uma área de livre comércio em que as pessoas vinham de várias partes do Brasil a Manaus para comprar produtos importados. A fase seguinte, passou a ter uma importância maior com a instalação de fábricas no Pólo Industrial de Manaus (PIM), porém, fortemente baseada na importação de componentes para a montagem de produtos. Outro período, o mais importante, veio a partir de 1995, com a abertura da economia brasileira e com o estabelecimento de processos produtivos básicos no PIM, quando os componentes se internalizaram, passando gradualmente a serem produzidos no Amazonas. Esse processo se deu de forma complementar, pois no bojo dele ouve o estabelecimento da Lei da Ciência e Tecnologia, que determina que uma parte do lucro das empresas seja aplicada para estimular a ciência, a tecnologia e a inovação. Com isso, foram criados institutos de pesquisas privados e dinamizadas as faculdades, que deram um salto significativo para a instalação de cursos de tecnologia na UFAM, hoje, com o único curso de mestrado na região, especialmente de doutorado em ciência da computação. Esses cursos, na região norte e centro-oeste, estão sediados em Manaus com boas perspectivas de avanços, pois aqui temos várias instituições voltadas para o setor. Há um novo momento na região, uma vez que essa mudança para pólo industrial não foi só uma modificação semântica, mas, efetivamente, um processo do setor em Manaus baseado em grandes empresas. Essa nova e forte inserção é um processo que vem desde o primeiro governo Eduardo Braga, que criou um sistema estadual de ciência e tecnologia, colocando 1% da receita líquida do Estado para fomento ao setor, possibilitando atrair investimentos do Governo Federal para o Pólo de Biodiversidade no Estado, mais especificamente para o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), na cidade de Manaus. Essa iniciativa resultou o processo produtivo básico de cosméticos, que também foi uma grande vitória para a Amazônia. Na área de eletrônica, por exemplo, as mudanças são muito rápidas e exige investimentos em ciência e tecnologia para competir no mercado, porque acabou o tempo em que somente se precisava estabelecer uma parceria com uma multinacional, visto que hoje ela também se associa com outras empresas em vários lugares do mundo.

Amazon View – Uma das grandes deficiências que a ZFM tinha era exatamente porque oferecia vagas no mercado de trabalho, mas poucas pessoas da terra estavam qualificadas para ocupar esses espaços, cuja maioria vem sendo preenchida por gente de fora, inclusive do exterior. O que vem sendo feito para reverter essa situação, porque não adianta só produzir produtos em Manaus sem agregar valores a eles, como emprego e renda para a população?

Secretário – Neste aspecto, existem duas variáveis: a primeira é que junto ao sistema estadual temos o Centro de Tecnologia da Amazônia (Cetam), responsável pela qualificação profissional. Para formar profissionais possuímos cursos rápidos para atender a demanda da indústria, pois o Cetam tem a flexibilidade de montar cursos e qualificar trabalhadores para o setor. Existem ainda fortes investimentos na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que foi ampliada significativamente nesse governo, principalmente para formar profissionais de ponta, em especial com graduação, mestrado e doutorado. A UEA possui cursos na área de tecnologia em convênio com a Universidade do Rio de Janeiro e de Pernambuco, além de 10 novos projetos em andamento, que dependem de aprovação do Ministério da Educação. É a criação de novos doutores na área tecnológica, exatamente para suprir a deficiência de mão-de-obra especializada reivindicada por vários empresários do PIM.

Amazon View – Durante muito tempo a biotecnologia tentou avançar na Amazônia, inclusive foi criado o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), que ficou hibernado durante algum tempo. O que falta para ele funcionar plenamente?

Secretário – O CBA é um centro de inovação tecnológica que existe apenas há sete anos. Ele representa um investimento público, especialmente do Governo Federal por meio de dois ministérios, o de Ciência e Tecnologia e o de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, inclusive pela Suframa, em algo aproximado de 70 milhões de reais. Graças a ação do governo do Estado, que fez convênio com a União para colocá-lo em funcionamento por meio de bolsas, são atraídos profissionais de ponta, pesquisadores seniors para Manaus. Esses bolsistas são selecionados entre jovens doutores, mestres ou doutorandos, para desenvolver projetos no Amazonas. Não projetos de pesquisa propriamente dito, mas projetos de certificação e testes de produtos, que é o real papel do CBA, um instituto de inovação, pois as pesquisas básicas continuaram ocorrendo nas universidades e instituições congêneres no Estado.

Amazon View – Por que não houve mais engajamento para o CBA?

Secretário – Por vários fatores. Foi uma série de processos, porque o principal é que não se estrutura, nem se faz um projeto sem a preocupação de estabelecer no conjunto um modelo de gestão, pois nele há o envolvimento dos ministérios da Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente, que discutem várias alternativas. Além disso, algumas propostas colocadas, como a da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, por exemplo, tiveram dificuldades de serem implementadas. O governador Braga sempre exigiu o funcionamento pleno do CBA e nos orienta que exijamos isso. Ele já fez várias gestões ao próprio presidente da República, mas creio que estejamos na reta final para a instituição entrar em funcionamento pleno.

Amazon View – Como o senhor vê a ZFM com 100% dos produtos produzidos em Manaus? Qual a sua opinião sobre as incubadoras de empresas?

Secretário – Acho que as empresas ainda são muito incipientes, pois não fomos capazes de utilizar plenamente o excelente modelo da ZFM que tem um faturamento em torno de 25 bilhões de dólares. Além disso, a ZFM possibilitou que o Estado do Amazonas fosse um dos mais preservados do Brasil. Mas ainda não fomos capazes de internalizar plenamente o processo industrial. Temos de conviver com isso até 2023, ou quem sabe um pouco mais com a base eletrônica e duas rodas. Contudo, vamos gradativamente avançando para uma indústria cuja base seja a biodiversidade regional, que é o nosso grande filão. Aí sim, teremos matéria-prima aqui mesmo na Amazônia. Não substituiremos, porém, essa nova indústria pela eletrônica já existente; criaremos produtos nacionais similares com investimentos pesados em ciência e tecnologia para colocá-los no mercado, assim como fazem a Coréia e outros paises asiáticos.

Amazona View – Quando vamos criar uma mentalidade para desenvolver produtos regionais com ciência e tecnologia?

Secretário – Importando kits tecnológicos não vamos chegar a lugar nenhum. É necessário, e muito rapidamente, criarmos condições para que efetivamente sejamos um grande exportador de produtos manufaturados, pois o Brasil passa por um momento muito importante, visto que nos países emergentes a falta de mão-de-obra é um fator limitante para o desenvolvimento, assim como o excesso dela também o é. Perguntamos: o que vai acontecer com a China, que tem uma população de 1,3 bilhões de habitantes, se ela deixar de crescer 12% ao ano e descer para dois por cento? Além disso, a China tem esse modelo de desenvolvimento, fortemente impactando do ponto de vista ambiental, com problemas seríssimos de poluição, água, etc.. Por outro lado, a China precisa importar muitas matérias-primas para toda a cadeia ácida, por exemplo. Se você observa a Índia, ela tem mais de um terço de sua população em um índice de miséria e pobreza absoluto, além das dificuldades ocasionadas por inúmeras etnias e castas. Para compará-los com o Brasil é diferente, temos matérias-primas necessárias para o nosso desenvolvimento, não possuímos problemas étnicos sérios, nem níveis de pobreza conflitantes. O País só precisa buscar um modelo para investir fortemente em tecnologia com metas para substituir as exportações, pois exportar soja e minérios sem uma base tecnológica, em pleno século 21, é um absurdo. Poderíamos vender o óleo e o farelo de soja somente com valor agregado. Daqui a pouco não teremos mais minérios para exportar porque nossas jazidas não pertencem mais ao Brasil. O Estado brasileiro não pode perder a sua soberania e ainda oferecer incentivos fiscais para empresas que deixam o País sem nada. Nesse sentido, pode acontecer o mesmo com o nosso maior potencial que é a biodiversidade. A Amazônia pode ser ocupada racionalmente e, sobretudo, manejada, não explorando toda a floresta sem conhecê-la, mas gerando conhecimento e a deixando em pé para estudá-la melhor. Se agirmos corretamente, ela poderá ser mais benéfica ao meio ambiente e produzir riquezas sustentáveis.

Amazon View – O senhor considera uma benção a Zona Franca ter vindo para Manaus, em termos de desenvolvimento sustentável da Região?

Secretário – À medida que avançam e aumentam os preços das commodities é que estabelecemos um valor para esses bens. Ontem, em palestra, o governador Eduardo Braga deu um exemplo dizendo que não mais encontram-se latinhas no chão, porque em todo canto tem alguém com saco procurando lata vazia. Por que isso ocorre? Porque se estabeleceu um valor para as latinhas. E por que não ocorre o mesmo com a garrafa plástica? Porque não há interesse em reciclá-las. E para aonde vão essas garrafas não biodegradáveis? Para os nossos esgotos e rios. Se estabelecermos um valor para a floresta em pé ela, certamente, não será derrubada e sim conservada. A grande novidade do atual processo é que o governo do Estado estabelece um percentual da sua receita para aplicar em ciência e tecnologia. Se isso tivesse ocorrido antes, imagine alguém com essa visão em 1967, teríamos avançado muito mais com um modelo bem diferente do que temos hoje, com mais cursos, pesquisadores e produtos 100% fabricados no PIM, por profissionais amazonenses.
 
Amazon View – Em sua avaliação o que o Amazonas pode oferecer para as pessoas que visitam a IV Feira Internacional da Amazônia (FIAM), agora em setembro, em termos de motivação para investir no Estado?

Secretário – Primeiro, contar sempre com a estrutura do sistema estadual, pois se uma empresa que vem se instalar no Amazonas nos procurar, por exemplo, podemos fazer treinamento de pessoal desde o chão de fábrica até a operação da mesma. Estamos inclusive criando condições para que as universidades formem pessoal com graduação, mestrado e doutorado para suprir as demandas empresariais, além de estabelecer parcerias com os outros institutos aqui existentes, alguns deles desenvolvendo produtos de alta tecnologia, onde o empresário poderá receber apoio e outros incentivos. Também temos e estamos formando mais profissionais capazes de dar respostas imediatas para aqueles que querem investir no Amazonas.


     
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