Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Meio Ambiente
Manga, um fruto que atravessou o mundo Ed. 82

A manga é um vocábulo com múltiplos sentidos. Pode significar peça de roupa, objeto mecânico, agrupamento de pessoas ou animais, corredor, parede ou até o fruto saboroso da mangueira, além de sentidos translatos.
O Aurélio conceitua o verbete como parte do vestuário onde se enfia o braço; filtro afunilado para líquidos; qualquer peça de forma tubular que reveste ou protege outra peça; parte do eixo dum veículo que se encontra dentro da caixa de graxa que recebe todo peso do carro, além de conotações diversas como “arregaçar as mangas”, “em mangas de camisa”, “pôr as mangas de fora” e tantas outras. Também pode significar hostes de tropa, grupo, ajuntamento, bando, turma; parede de cerca que vai da beira até as asas dos currais-de-peixe, perpendicularmente ao rio; corredor com paredes de varas, que conduz a um rio ou a um igarapé e serve para guiar os bois que vão ser embarcados; pastagem cercada onde se guarda o gado; cercas divergentes, a partir da porta do curral, que servem para facilitar a entrada, nele, do gado; linha formada por pessoas a pé ou a cavalo para obrigar o animal a passar por determinado ponto, ou fazê-lo entrar para a mangueira, ou simplesmente o fruto que nos faz lembrar Belém do Grão-Pará, “a cidade das mangueiras”.

 

Na farmacopéia popular, soma-se ao receituário oficial, que a manga é indispensável para se ter boa visão e auxiliar no crescimento do corpo e na saúde da pele. Age também contra infecções e fortalece os ossos e a formação dos dentes, além de evitar queda dos cabelos. É ainda indicado para as enfermidades das vias respiratórias, como catarros, tosse e bronquite, atuando como um ótimo expectorante, preparado, de preferência, como xarope, com mel. Na verdade, a manga tornou-se uma preferência nacional por seu sabor acentuado e textura agradável ao paladar e por ser encontrada em todo o País.

 

O título da capital paraense lembra os túneis feitos pelas numerosas mangueiras em determinadas avenidas e praças da cidade, que amenizam o calor equatorial, principalmente nos meses do verão amazônico, além de ornamentar a cidade e abastecê-la com o delicioso fruto desta árvore generosa, na época da safra, quando em Belém abundam mangas e periquitos. Os moradores das áreas mais centrais de Belém já estão acostumados de vê-las e juntar mangas na rua, depois da chuva ou de uma ventania. 
 
Quem observa essas incontáveis mangueiras que compõem sua farta arborização da cidade pode até pensar que a manga é originária da Amazônia, uma região tão pródiga de frutos saborosos. Ledo engano! Pesquisadores acreditam que a manga seja originária do sudeste da Índia, Mianamar (antiga Birmânia) e Bangladesh, onde fósseis registram espécimes com 25 a 30 milhões de anos. Apesar de tão familiares aos belenenses, as mangueiras foram trazidas pelos colonizadores portugueses no alvorecer do século XVI, depois da descoberta das rotas marítimas para o continente asiático. Outra versão dá conta de que elas vieram em 1780, pelas mãos do arquiteto italiano Antônio Landi, cujas obras são marcos importantes da história do Pará. Mas a arborização da cidade com essas árvores somente iniciou em meados do século XIX, levada pela necessidade de minimizar os efeitos da radiação solar em zonas equatoriais, como mostram fotos de “túneis de mangueiras” em postais de Belém na fase áurea da borracha, com maior difusão na administração do intendente Antônio Lemos (1897-1910). Foi ele que promoveu uma vigorosa urbanização da cidade dotando os bairros de um traçado ortogonal, com rua largas e intensa arborização com mangueiras, espalhando sementes em bairros do centro da cidade. 
 
Pertencente ao gênero Mangifera, que inclui cerca de 35 espécies   da família Anacardiaceae, sendo a mais difundida a Mangifera indica, essa árvore frondosa que produz cerca de 500 a dois mil frutos ao ano, se adaptou facilmente ao clima brasileiro, produzindo uma variedade de espécies, com grande diversidade de forma, peso, sabor e cor, que vai do verde ao vermelho escuro. Existem até mangas sem fiapos, obtidas pelo cruzamento de espécies indianas e americanas, com vantagens em peso, coloração e resistência às pragas. Todas as variedades são propícias ao fabrico de doces, geléias, sucos, saladas, sorvetes e outras delícias, dentre elas, o mango chutney, para acompanhar assados e que é preparado com polpa de manga verde cozida e temperada com gengibre, especiarias, vinagre, pimenta e sal. A oferta mundial de manga é atualmente de cerca de 24 milhões de toneladas anuais, com produção concentrada em mais de 50% na Índia, cerca de 10% na China, seguidos do México, Tailândia e Filipinas. O Brasil é o nono produtor do mundo com uma participação de 3,4%  no volume total ofertado. Mas o mercado internacional de manga não é uniforme, devido às variações de preferências e exigências dos consumidores. O nome da fruta vem da palavra Malayalam manga. As mangueiras são grandes árvores que atingem até 40 metros de altura, com folhas perenes e flores diminutas, em inflorescências paniculadas nas extremidades dos ramos. São tantas que seu perfume se sente à distância. A manga é um fruto carnoso provido de um núcleo muito duro, de coloração entre o amarelo, o laranja e o vermelho, mais rosado no lado que recebe insolação direta e mais amarelado ou esverdeado no lado de insolação inversa. A polpa é suculenta e muito saborosa e doce, em alguns casos fibrosa, podendo ser consumida in natura. A fruta contém cerca de 15% de açúcar, até 1% de proteína e quantidades significativas de vitaminas, minerais e anti-oxidantes, em especial vitaminas A, B e C, além de grande quantidade de ferro, sendo indicada para anemias e mulheres grávidas, ou para períodos de menstruação. Também é indicado para câimbras, estresse e problemas cardíacos, por sua alta concentração de potássio e magnésio. Há informações de que as mangas ajudam os intestinos e tornam mais fácil a digestão, inclusive que a fruta estanca hemorragias, fortalece o coração e traz benefícios ao cérebro.
A professora Gláucia Maria Pastore, do Departamento de Ciência de Alimentos da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, justifica a atenção que pesquisadores dão à manga não apenas pelo sabor e aroma como pelo seu elevado valor nutritivo em comparação a outras frutas. Ela explica que a manga, cada vez mais, revela substâncias bioativas – com benefício para o organismo humano devido à presença de antioxidantes, considerados capazes de retardar o envelhecimento e o aparecimento de certas doenças e inclusive o de evitá-las.
Já a bióloga Andréia Cristiane Souza Azevedo afirma que pesquisas dos componentes da manga apresentam o caráter bioativo e a 
quimioproteção natural da fruta, o que, aliás, deu origem à sua tese de doutorado orientada pela professora Gláucia Pastore, estudando as suas enzimas oxidativas e presença de compostos bioativos, com base nas variedades Tommy Atkins, Haden e Palmer, em três diferentes estágios de maturação. A bióloga enfatiza que a ação da manga está sempre ligada à capacidade de atacar radicais livres, que se formam em grande quantidade no organismo humano e que eles acarretam várias doenças crônico-degenerativas, que são aquelas que se manifestam no decorrer do tempo e não de forma aguda, a exemplo do câncer, determinando ainda as porcentagens dos vários componentes nos principais estágios de maturação, a atividade antioxidante e a presença de uma importante substância antioxidante como a mangiferina, principalmente na casca do fruto.


     
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