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O Brasil é um país com vasta dimensão territorial que possui grande variedade de clima, tendo, numa mesma estação, diferenciação de temperaturas e condições atmosféricas de acordo com as regiões, proporcionando no mesmo período do ano características de inverno e verão. Por tudo isso, os vegetais também têm suas características próprias em cada Estado brasileiro, em cada zona climática, temperada ou quente.
Por causa destas condições é que as espécies de orquídeas estão em todas as regiões brasileiras, especialmente na vasta Amazônia, que tem em suas terras grandes quantidades de rios, lagos e lagoas, em cuja diversidade aparecem inúmeras orquidáceas. Em cada área, uma variedade, as margens de cada rio, uma espécie, em cada mata fechada ou rala, aparecem as mais belas orquídeas, em cada campina ou cerrado, local mais apropriado para o surgimento deste vegetal que encanta por suas flores, as mais diferentes, pelo perfume, os mais inebriantes, pelas suas formas e coloridos, os mais apreciados e desejados. Nas matas e beiras de rio desabrocham as orquídeas, como as variedades Cattleya violacea, eldorado, nobilior, lawrenciana, luteola, araguaienses e catasetineas, além das Cygnoches, Mormodes, Coryanthes, Encyclias, Oncidiuns, Licastes, Schomburgkias, Maxilarias, Zigosepaluns, Scuticarias, Brassias, Peristeria, Galeandras, Acacalis, Bifrenarias, Paphincas, Batemanias e uma infinidade de outras, epífitas ou terrestres, micros ou de características botânicas. Esta enorme variedade de orquídeas, assim denominadas pelos orquidófilos, é fruto do grande território da bacia amazônica, das chuvas que são diárias e constantes, das matas altas ou ralas, dos serrados ou lavrados, dos brejos ou montanhas pedregosas e da luminosidade abundante.
As orquídeas pertencem à ordem Asparagales e da família Orchidaceae. Alguns autores as definem como a maior de todas as famílias botânicas, com números de espécies estimados entre 25 mil e 40 mil. É consenso geral que se trata da maior família botânica dentre as monocotiledôneas, números imponentes que desconsideram a enorme quantidade de híbridos e variedades produzidos por orquidicultores todos os anos. A quantidade de gêneros conhecidos também é surpreendente, superando a marca dos 700, sendo que subdivide-se em cinco subfamílias: Apostasioideae, Cypripedioideae, Vanilloideae, Orchidoideae e Epidendroideae.
As espécies de orquídeas são um desafio para os teóricos em Biologia, no que diz respeito ao próprio conceito de espécie. Há muitas orquídeas com características marcantemente próprias e diferentes de outras que, quando postas em contato com estas, podem efetuar cruzamentos e produzir híbridos férteis. Estes híbridos ainda podem ser cruzados com outras espécies e produzir novas gerações férteis. Há híbridos entre espécies e até mesmo entre gêneros. Há híbridos obtidos através do cruzamento de várias gerações, de quatro ou mais gêneros distintos. Este fenômeno é um dos trunfos dos orquidicultores, que podem misturar espécies e obter combinações quase infinitas de novas formas e cores, fato que também ocorre naturalmente. É possível que várias espécies classificadas pelos botânicos sejam, na verdade, híbridos naturais há muito estabelecidos pela biodiversidade.
Esta confusão certamente influencia nas flutuações do número de espécies de Orchidaceae, uma vez que não há sequer um consenso do que seria exatamente uma espécie de orquídea.
Eldorado – Dentre as inúmeras orquídeas brasileiras de extraordinária beleza ornamental destaca-se a Cattleya eldorado, espécie nativa de áreas do Amazonas, em especial ao longo da região do Rio Negro. O vegetal possui hábito epifítico, ocorrendo predominantemente nos tipos de vegetação conhecidos como campina ou campinarana, em áreas com alta luminosidade e grande umidade, tendo menor freqüência na floresta de terra firme. Possui pequeno porte, muito marcado pela umidade e com grande concentração de musgo ou líquen, o que dá condições próprias para a robustez do vegetal. Suas flores são vistosas e de alto valor comercial, cuja floração ocorre nos meses de dezembro a fevereiro, em pleno verão brasileiro, quando a intensidade do calor é grande e as chuvas são freqüentes. No cultivo, a espécie adapta-se muito bem em pedaços de cedro; em cinazita, com bastante adubação; e em casca de coco, tomando-se cuidado com a irrigação ou com as chuvas prolongadas.
As plantas apresentam de três a seis flores por haste floral, longas e bem distribuídas, com tamanho variando entre dez a 18 centímetros de diâmetro. Suas cores, muito variadas, apresentam amarelo no labelo de forma constante nos tons amarelo-limão e amarelo-laranja. A coloração de sépalas e pétalas é de um lilás claro, que representa a cor-padrão da espécie. Conforme a coloração distribuída no labelo, considera-se variedades a puntacta, striata, orlata, velata ou coronata. Seu híbrido mais comuns é a Bc. Rubyi, que é o resultado do cruzamento de Cattleya eldorado com Brassavola martiniana. Outro híbrido é a Cattleya brimeriana, que é resultado do cruzamento de Cattleya eldorado com Cattleya violacea.
Há registro que os primeiros exemplares desta espécie teriam vindo da Europa, trazidos em 1866 pelo botânico belga Jean Jules Linden. No ano seguinte, a espécie foi exibida por ele em Paris, pela primeira vez, sob a denominação de Cattleya eldorado, nome em alusão ao colorido áureo do labelo desta flor. A espécie, na verdade, possui várias outras denominações, sendo a mais comum a que o botânico belga apresentou na capital francesa, em 1867, razão pela qual passou a se chamar cientificamente Cattleya eldorado Linden ex Van Houte.
Sobre este belo vegetal, o professor Pedro Ivo Soares Braga, titular do Departamento de biologia da Universidade Federal do Amazonas, diplomado em História Natural, com Mestrado em Botânica e Doutorado em Ciências Biológicas, afirma que a eldorado tem distribuição bem mais restrita do que se imaginava, ocorrendo em Barcelos, com probabilidade de chegar a Roraima. Braga cita a área do lago da Hidrelétrica de Balbina como de grande ocorrência da referida espécie, apesar da formação do reservatório ter encoberto extensas áreas de campina, matando desta forma muitas orquídeas epífitas ali existentes. Segundo o professor, a Cattleya eldorado é uma planta que fixa gás carbônico no período noturno e cresce durante o dia, desenvolvendo-se em árvores onde a água da chuva é escoada. Ela cresce bem nas raízes úmidas das árvores, mas prefere os locais bem iluminados, tendo dois grupos distintos de eldorado, o que ocorre no igapó e outro em terra firme, ambos com floração em diferentes épocas. “Tenho suspeita de que algumas populações da Cattleya eldorado possam ter hibridado com a Cattleya jenmani, de Roraima, o que pode ser também um processo de hibridação, ou uma introgreção genética, visto que nessas populações existe vicariância. Elas são diferentes, pois as plantas do igapó são maiores do que as de terra firme”, afirma Pedro Ivo Soares Braga.
O professor explica o fenômeno, referindo-se ao fato da Cattleya eldorado ser restrita à área do Rio Negro e a Cattleya jenmani, a Roraima, justificando que as orquídeas têm dispersão de sementes à grande distância pelo vento, pois estas são diminutas. Podem também migrar através de igapó ou de uma campina para outra com a ação do vento.
Sobre a discussão de haver ou não sinonímia em torno do nome da Cattleya eldorado, diz o professor que há dois tipos de botânicos: aqueles que descrevem muitas espécies ou as subdividem e os que as agrupam, preferindo manter o seu nome como válido quando ainda não se conhece bem a espécie. “Acho, por exemplo, que está havendo uma grande confusão com a Cattleya wallisii, por isso que mantenho Cattleya eldorado como o nome válido, por enquanto. Na verdade, acho que são duas espécies diferentes e ainda vou fazer a análise de DNA das plantas do igapó e da terra firme para conferir. A minha dificuldade até agora estava no fato de não haver ninguém interessado no estudo de DNA de orquídeas, pois o pessoal daqui de Manaus trabalhava muito em biotecnologia, mas não com o DNA de plantas”, conclui.
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